sábado, abril 02, 2005

dia oitenta e quatro : 84 : cadernos oblíquos # 04

[um eléctrico chamado madre-de-deus]

cinco álbuns depois do início da viagem, os madredeus resolveram agora, neste ano simbólico de 2000, fazer o balanço de um percurso que, como poucas bandas nacionais se poderão orgulhar, foi sempre ascendente, e que o continua a ser, mesmo depois da aclamação da crítica mundial.
desde que, em 1988, cinco músicos resolveram gravar “os dias da madredeus” numa velha igreja de lisboa, até 1997, ano em que lançaram o seu último álbum de originais [o paraíso], a música dos madredeus, nunca negando as suas raízes na tradição musical portuguesa [o fado, o folclore e a saudade], foi encontrando novas formas de as exprimir.
numa busca da harmonia, o génio de ayres magalhães continua a ser a força criativa que assina quase todas os poemas a que teresa salgueiro empresta o sentimento interpretativo da sua voz, acompanhada pela sublime composição que brota do virtuosismo dos restantes, não menos importantes, músicos. mas os sempre esgotados espectáculos internacionais que os levaram a todo o mundo colocaram-nos em contacto com novas culturas musicais que, a julgar por oxalá e as brumas do futuro - temas inéditos incluídos nesta colectânea - não pretendem renunciar.
a escolha dos dezassete temas que compõem o álbum terá sido decerto difícil, tal como confessou o editor david ferreira, feita apenas de meros gostos pessoais; porém, a inclusão de temas como o pastor, a vaca de fogo, ao longe o mar ou haja o que houver é indiscutível. destaque-se ainda a óptima composição instrumental intitulada as ilhas dos açores.
antologia é, sem dúvida, um trabalho incompleto, o esboço da evolução dos madredeus, que reflecte não só as alterações na sua composição, mas também o próprio crescimento e enriquecimento musical dos elementos que os compõem, a que faltarão sempre outras canções, fruto de outras escolhas.

ao largo ainda arde a barca da fantasia...




madredeus : antologia : # 04 haja o que houver [emi - valentim de carvalho, 2000]

[por fdv e tjm: originalmente para o jornal a cabra # 59, maio de 2000]

2 comentários:

Arroz de Estragão disse...

Sublinho-te.

E acrescento, não sei se são brilhantes pela atitude de constante experimentação (tradição-Ainda-Movimento-Electrónico-Flemish Orchestra) sem medo de desiludir quem compra o trabalho deles, ou se são tão genuínos na forma como experimentam que faz com que o trabalho deles abundantemente se compre.

Uma vénia há mais bem sucedida banda portuguesa de sempre.

Cumprimentos.

Post Scriptum: sabias que o P.A.Magalhães chegou um dia a casa (quando jovem) cheio de alfinetes espetados na cara? Foi a maneira que encontrou para dizer ao pai que não, ele não havia de estudar Psicologia.

Foi o melhor que fez...apesar de ter ficado sem falar com o pai durante uns anos valentes...

O José Peixoto também trocou as voltas, embora um pouco mais tarde; foi um bom aluno de arquitectura, até ao fim. Mas, logo depois de se formar, passou-se e dedicou-se inteiramente à guitarra.

Enfim, histórias...

O Puto disse...

Sem querer retirar valor e mérito à banda portuguesa mais "internacionalizada", confesso que deixaram de entusiasmar-me a partir do primeiro álbum. "Os Dias da Madredeus" é um disco sem par na história da música.
Cpts de Trás-os-Montes,
O Puto